Entrevista com a Dra. Salud Santos – Hospital Universitário Bellvitge
O envelhecimento da população europeia é acompanhado por um aumento acentuado de doenças respiratórias crónicas, como a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) ou a fibrose pulmonar. Estas patologias têm um grande impacto na saúde dos idosos, não só em termos de respiração, mas também na sua autonomia funcional, no seu estado emocional e na sua qualidade de vida geral.
Neste contexto, o projeto europeu SHAPE é reconhecido como uma resposta inovadora e estruturada aos limites atuais dos percursos de cuidados. Ao combinar atividade física adaptada (APA), apoio humano e soluções digitais, o SHAPE pretende garantir e fortalecer o período-chave após uma hospitalização, um período particularmente crítico para os doentes respiratórios idosos.
Esta ambição baseia-se na experiência clínica da Dra. Salud Santos, pneumologista do Hospital Universitário Bellvitge, cuja visão lança luz sobre os verdadeiros desafios enfrentados no terreno.
Uma experiência clínica focada no cuidado global ao doente
A Dra. Salud Santos é pneumologista há mais de 25 anos no Hospital Universitário Bellvitge. Durante 15 anos, especializou-se no tratamento integrado da DPOC, uma doença respiratória crónica generalizada, ainda largamente subdiagnosticada e responsável por um grande número de hospitalizações repetidas.
A sua carreira profissional foi construída em torno de vários eixos estratégicos:
- Diagnóstico precoce e coordenação com os intervenientes locais, para limitar o subdiagnóstico e intervir mais cedo na evolução da doença.
- Acompanhamento hospitalar de doentes graves e agudos, com elevado risco de deterioração funcional, perda de autonomia e mortalidade.
- A estruturação dos percursos de cuidados através de um hospital diurno respiratório, permitindo uma gestão programada e reativa, com o objetivo de prevenir exacerbações.
- O desenvolvimento de programas de reabilitação respiratória, que integram fisioterapia respiratória, educação terapêutica e recondicionamento do stress, com uma redução demonstrada de hospitalizações e recaídas.
No contexto hospitalar-universitário, esta abordagem associa de perto os cuidados, a investigação clínica, a inovação organizacional e o ensino.
O papel do Dr. Santos no projeto SHAPE
No âmbito do projeto SHAPE, o Dr. Santos intervém com uma visão clínica, organizacional e estratégica, em estreita colaboração com as equipas de pneumologia e hospitalização respiratória.
As suas principais missões incluem:
- A continuidade do processo de cuidados para pacientes respiratórios durante e após a hospitalização.
- A seleção e o acompanhamento clínico dos doentes integrados no projeto.
- A contribuição conceptual para a integração do SHAPE nos circuitos hospitalares existentes.
- Uma abordagem holística ao paciente, considerando a doença nas suas dimensões clínicas, funcionais, emocionais e sociais.
O Dr. Santos sublinha que o SHAPE responde a uma lacuna crítica no processo de cuidados: o período pós-hospitalização, durante o qual a fragilidade aumenta e o risco de perda funcional é máximo.
Os principais desafios clínicos em doentes respiratórios idosos
Em doentes com mais de 70 anos com doenças respiratórias crónicas, são observados de forma consistente vários desafios importantes:
- Uma forte comorbilidade, incluindo diabetes, patologias cardiovasculares e perturbações cognitivas.
- Um estado avançado de fragilidade, com limitações funcionais significativas.
- Um medo marcado de perda de autonomia, frequentemente acentuado após hospitalização.
- Dificuldade em recuperar competências funcionais depois de alteradas.
- Um impacto psicoemocional significativo, caracterizado por diminuição do moral, depressão e perda de motivação, especialmente após repetidas hospitalizações.
Cada hospitalização atua como um acelerador da perda funcional e, nas pessoas mais velhas, a recuperação é frequentemente lenta e incompleta na ausência de apoio estruturado.
Prevenir a perda de autonomia durante e após a hospitalização
Durante a hospitalização, são realizadas várias intervenções:
- Fisioterapia respiratória (gestão da dispneia, desbloqueio brônquico, aprendizagem eficaz da respiração e tosse).
- Mobilização precoce e fortalecimento global dos músculos.
- Apoio emocional fornecido pelas equipas de cuidados.
No entanto, estes benefícios são frequentemente enfraquecidos quando se trata de regressar a casa. Os pacientes enfrentam então as seguintes opções:
- Solidão e isolamento social.
- Falta de cuidadores familiares ou recursos de apoio.
- Uma perda gradual de motivação para continuar os esforços de recuperação.
É nesta fase que o SHAPE oferece um valor acrescentado decisivo, prolongando o acompanhamento graças à APA e à monitorização remota.
Desenhar uma atividade física adaptada verdadeiramente eficaz
Para o Dr. Santos, a eficácia de um programa adaptado de atividade física baseia-se, acima de tudo, na sua capacidade de se adaptar ao perfil do paciente. Os elementos-chave são:
- Personalização de acordo com as capacidades funcionais, motivação e contexto de vida.
- Objetivos realistas, focados em gestos diários e na recuperação da autonomia.
- Uma abordagem progressiva de “cuidados por passos”, que combina diferentes modalidades (presencial, remota, individual, domiciliar).
- Uma dimensão social, essencial para combater o isolamento e fortalecer a adesão.
Experiências anteriores, como workshops de canto coral para doentes com DPOC ou programas para pacientes especialistas, mostram que o prazer, a ligação social e o sentido de pertença são alavancas motivacionais poderosas.
Um ponto fundamental é questionar as expectativas do paciente, que nem sempre correspondem aos objetivos clínicos tradicionais.
O digital como alavanca para monitorização e motivação
No projeto SHAPE, a ferramenta digital é concebida como um facilitador do vínculo humano, e não como uma restrição adicional. Para ser eficaz, deve ser:
- Simples, intuitivo e acessível.
- Não são intrusivas e não estão sobrecarregadas de conteúdo.
- Orientado para o seguimento, estimulação e motivação.
Apesar da existência de uma divisão digital em algumas pessoas idosas, a experiência mostra que o apoio humano permite ultrapassar estes obstáculos. A monitorização remota ajuda a manter o compromisso, prevenir recaídas e reforçar a sensação de segurança.
Um impacto esperado em vários níveis
Segundo o Dr. Santos, a SHAPE pode ter um impacto significativo em:
- Recuperação mais rápida do estado funcional após hospitalização.
- Melhorar a qualidade de vida.
- A redução das rehospitalizações.
- Bem-estar emocional e manutenção da autonomia.
Os principais indicadores incluem o tempo de recuperação funcional, o tempo antes da rehospitalização e a evolução do estado emocional pós-alta.
O valor acrescentado de uma colaboração europeia multidisciplinar
A dimensão europeia da SHAPE permite que:
- Uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar, que integra saúde, digital, educação e social.
- Um enriquecimento mútuo entre profissionais com competências complementares.
- Uma reflexão sobre a transferibilidade e expansão do modelo em diferentes contextos socioculturais.
O Dr. Santos sublinha a importância da colaboração com perfis não médicos (engenheiros, cientistas da computação, estatísticos), essencial para conceber soluções inovadoras para problemas clínicos complexos.
Uma mensagem final para os pacientes
A mensagem que o Dr. Santos quer transmitir aos pacientes é clara:
Avance gradualmente, ao seu próprio ritmo, com objetivos realistas e apoio contínuo, mesmo à distância.
O processo pode ser lento, mas cada passo conta, e manter-se ativo é sempre melhor do que inatividade.