Durante mais de 20 anos, a Fundação Siel Bleu tem trabalhado para melhorar a saúde e preservar a autonomia das pessoas em risco funcional através de programas adaptados de atividade física. Durante este período, verificou-se que, em muitos casos, a intervenção começa quando a fragilidade já surgiu. Desta observação surgiu a questão que deu origem à SHAPE: o que aconteceria se pudéssemos agir antes que esta deterioração ocorresse?
De onde veio a ideia de trabalhar na prevenção da fragilidade no hospital?
A fragilidade adquirida durante a hospitalização é uma realidade que muitas pessoas experienciaram de perto. Todos conhecemos um familiar, um vizinho ou um amigo que, após uma admissão, perdeu força, capacidade física e autonomia.
No meu caso, tomei consciência disso com a minha avó. Depois de várias internações, sempre que voltava a casa depois de uma admissão, encontrava-a um pouco mais frágil. Andava menos, tinha perdido forças e também autoconfiança. Após a última admissão, faleceu alguns dias depois. Essa experiência fez-me questionar até que ponto o próprio processo de internamento teria contribuído para esta deterioração.
Como percebeu que esta situação não era um caso isolado, mas que afetava mais pessoas?
A partir dessa experiência pessoal, procurámos evidências científicas para perceber o que estava a acontecer. Descobrimos que, durante uma hospitalização, uma pessoa pode perder entre 2% e 5% da sua massa muscular, dependendo da idade e do estado funcional. Isso fez-nos perceber que a minha avó não estava apenas a piorar por causa da doença, mas também pelo próprio processo de internamento.
Também encontrámos evidências de que, se esta fragilidade adquirida não for revertida durante os três meses após a alta, as hipóteses de recuperação diminuem consideravelmente e pode surgir uma situação de dependência permanente.
Foi então que percebemos que não basta diagnosticar a fragilidade precocemente. Também deve ser prevenida e tratada o mais rapidamente possível. Se parte do problema surgir durante a hospitalização, os hospitais também devem fazer parte da solução.
Como é que esta reflexão levou ao nascimento da SHAPE?
Até então, na Siel Bleu desenvolvemos os nossos programas principalmente em lares de idosos, onde muitas pessoas chegavam após a hospitalização com uma perda significativa de autonomia. Esta experiência fez-nos pensar que a atividade física adaptada poderia ter um impacto maior se intervivéssemos mais cedo.
Foi assim que nasceu o SHAPE. O projeto transfere esta intervenção com atividade física adaptada ao ambiente hospitalar para acompanhar as pessoas desde a admissão até ao regresso a casa e garantir continuidade na sua recuperação.
O SHAPE reúne hospitais, administrações e entidades especializadas. Como é organizado este consórcio e qual é o papel de cada parceiro?
Para transformar esta ideia num projeto, precisávamos de hospitais que partilhassem a nossa visão. Contactámos muitos centros até encontrarmos parceiros alinhados com o problema que queríamos resolver.
Os hospitais desempenham um papel fundamental no projeto porque são eles que realizam os ensaios clínicos e a investigação científica. Além disso, cada um deles é especialista numa das áreas clínicas que tratamos no SHAPE. Temos a CHU Montpellier e a CHU Limoges em França, a Biobizkaia e a IDIBELL em Espanha e o Instituto S. João de Deus em Portugal.
Para além dos hospitais, o consórcio incorpora o Serviço de Saúde de Castela e Leão e a Fundação Jiménez Díaz, que trabalham para validar a transferibilidade do modelo e facilitar a sua futura implementação noutros sistemas de saúde.
A Siel Bleu lidera a coordenação e implementação do projeto através das suas sedes em França, Espanha e Portugal, de onde contribui com a sua experiência em atividade física adaptada.
Que necessidades identificou antes de desenhar a SHAPE e como moldou a solução?
Começámos por analisar o que impedia que a atividade física fosse recomendada regularmente pelo sistema de saúde. Identificámos duas barreiras principais.
O primeiro afeta os pacientes. Quando um médico prescreve um medicamento, todos sabemos para onde ir. Mas o mesmo não acontece com o exercício físico, não existe uma “farmácia do exercício”. Quando um médico recomenda atividade física, muitas pessoas não sabem para onde ir, que tipo de exercício precisam ou que profissional devem contactar.
O segundo afeta os profissionais de saúde. Os médicos também não dispõem de informação clara sobre a oferta existente. Há uma falta de visibilidade, reconhecimento e certificação dos programas de atividade física adaptada. Isto dificulta saber se cumprem os requisitos de segurança, qualidade e impacto exigidos por um ambiente de saúde.
A solução proposta pela SHAPE é uma plataforma que funciona como um “balcão único” para todos os intervenientes envolvidos. Facilita a recomendação de atividade física adaptada de forma estruturada e com as mesmas garantias de qualquer outra intervenção de saúde.
O SHAPE é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (ERDF) através do programa Interreg Sudoe. O que foi avaliado relativamente à proposta para obter o financiamento?
Foi um processo muito exigente. A Interreg Sudoe avalia os projetos em duas fases e analisa tanto a qualidade técnica como o impacto esperado, a capacidade do consórcio e a viabilidade da proposta.
No nosso caso, um dos aspetos mais valorizados foi o plano de trabalho. Desde o início quisemos desenhar um projeto muito prático, com objetivos claros, responsabilidades bem definidas e um roteiro partilhado para que cada parceiro soubesse o que devia fazer em cada fase e como contribuir para os resultados comuns.
Outro elemento diferenciador foi a natureza inovadora da proposta. A SHAPE não se limita a desenvolver um programa de exercício físico adaptado, mas cria um modelo que liga o hospital à casa do paciente através de uma plataforma digital. Criámos um espaço onde um profissional de saúde pode encaminhar um paciente tão facilmente como prescrever um medicamento.
Para além da área da saúde, que mudanças a SHAPE pretende promover na sociedade?
Quando uma pessoa sai do hospital, todos queremos que recupere da melhor forma possível. Mas essa recuperação não depende apenas dos cuidados de saúde. Depende também de como compreendemos o papel do exercício físico.
Durante muitos anos interiorizámos que, após uma doença ou hospitalização, é melhor ficar de cama e descansar. Hoje sabemos que, quando a situação clínica o permite, mudar-se também faz parte do tratamento. Recuperar a atividade física de forma segura ajuda a preservar a autonomia, melhora a qualidade de vida e reduz o risco de novas complicações.
Essa é a mudança de mentalidade que a SHAPE quer promover: substituir a ideia de que descansar é sempre a melhor opção por uma baseada em evidências e que entende o movimento como uma ferramenta para recuperar a saúde.